Entrevista com Mitsuko Uchida: “Não basta tocar piano – é preciso uma vida inteira para compreender a música”

Posicionado no topo da profissão está um grupo de pianistas que todos concordam que são supremos. Mitsuko Uchida é um deles. Ela tem a perfeição límpida de toque e fraseado, e uma forma de criar um universo de sonoridade para cada compositor.

Outros músicos não fazem nada além de aplaudi-la. O tenor Ian Bostridge admira-se pela forma como ela consegue encontrar o fio que faz o elo de ligação entre um grupo de músicas a um todo. Seu colega de muitos anos, o pianista Richard Goode, fica impressionado pela maneira como ela combina a perfeição icônica da sonoridade com espontaneidade.

Uchida não gosta de dar entrevistas, mas quando nos encontramos ela sorri sem parar e me oferece uma xícara do seu sofisticado chá japonês favorito. “Muito saudável, sem cafeína”, ela diz. Pergunto se a comida japonesa, em geral, é mais saudável. “Isso é totalmente um mito”, ela diz, com desdém. “Tudo é repleto de glutamato monossódico. Depois de algumas semanas lá, fico doente”.

Uchida precisa ser cautelosa com a saúde, desde que uma vertigem persistente causada por um problema no ouvido interno a manteve afastada da profissão por meses. “Tive que abandonar minha gravação do Diabelli de Beethoven” ela diz. “Isso agora está programado para 2020”. Por que tanta espera? “Porque agora estou ocupada trabalhando nas sonatas de Schubert, e esse é um universo sonoro completamente diferente. Você não pode sair instantaneamente de um para outro”.

Após uma carreira de mais de 40 anos, Uchida ainda permanece no topo do cenário, algo que ela atribui à sua lenta ascensão. “Hoje em dia os jovens pianistas são muito pressionados”, ela diz. “Existe tanta pressão para se tornar uma estrela instantaneamente. Tudo precisa ser instantâneo, por conta dessa… dessa… como vocês chamam?” Mídia social? “Sim, exatamente. Eles acham que isso tem a ver com ‘compartilhamento’, dizendo ao mundo o que comeram no café da manhã. Isso não é compartilhamento, é propaganda. Compartilhamento é o que acontece em uma sala com algumas pessoas num concerto, com todos focados em alguma coisa que amam”.

O asseio da casa e ornamentos carregados de textos em japonês nas prateleiras, sugerem que Uchida ainda sente uma fidelidade cultural ao Japão. Mas ela resiste à minha sugestão de que “no fundo” ela é japonesa. “Eu não escolhi nascer no Japão”, ela firma. “É claro que eu adoro falar o idioma, adoro visitar, mas não é onde escolhi estar. Também não escolhi Viena, mas eu adoro”, ela adiciona, referindo-se à cidade onde morou desde os 12 anos, quando seu pai foi nomeado embaixador japonês. Seu talento foi identificado imediatamente, e ela se tornou aluna na Academia de Música de Viena.

Mas, mesmo quando ganhou uma competição aos 15 anos, Uchida ainda não tinha certeza de que queria ser uma pianista. “Meu professor ficou furioso por eu dizer isso, mas senti que era a única coisa honesta a dizer, porque eu não sabia o que significava ser uma pianista.

Levei anos para entender que não basta só tocar piano – é uma tarefa para toda a vida, entender como realmente funciona a música. Eu também não era tão interessada no piano. Amava a ópera. Meu Deus, era tão bom estar em Viena naqueles dias, e ouvir cantoras como Mirella Freni!”, ela diz, olhando para o alto como se recebesse uma visão beatífica. “Na verdade, nenhum dos meus ídolos musicais eram pianistas. Eu amava o violinista Joseph Szigeit, e quando ouvia suas gravações de Mozart eu caia em lágrimas. E o violoncelista Casals. O grande ídolo do piano em Viena naquela época era Wilhelm Backhaus. Eu não gostava dele, mas não podia dizer isso”.

Quando seu pai deixou Viena, Uchida, então com 16 anos, permaneceu sozinha para estudar. Coragem é uma coisa que nunca lhe faltou, além daquela combinação paradoxal de orgulho, teimosia e humildade, uma qualidade que era compartilhada com um de seus heróis musicais, Arnold Schoenberg. Cinco anos depois, Uchida venceu a competição Beethoven em Viena e, seis anos depois, o segundo lugar na competição de Leeds.

Mas até então ela não tinha certeza sobre seu talento. “Você precisa ter sua própria sonoridade”, ela diz. “Pense no pianista Rudolph Serkin. Ele podia tocar no pior piano vertical, com cordas faltando e, depois de alguns compassos, você sabia que era ele. Ele foi o pianista que realmente colocou lágrimas nos meus olhos. É por isso que estou tão feliz por estar associada ao Marlboro”, ela diz, referindo-se à famosa escola de música de verão para jovens músicos promissores, em Vermont, co-fundada por Serkin em 1951. Uchida tornou-se diretora co-artística da escola juntamente com Goode em 1999 e, desde sua aposentadoria em 2013, tem dirigido sozinha. “Eu amo muito, mas é um trabalho difícil! Preciso ser a mãe de todos eles”, ela diz.

Então, quando Uchida acha que encontrou sua própria sonoridade? “Quando estava no fim dos meus 20 anos”, ela diz. “Eu liguei no Radio 3, ouvi alguém tocando piano e pensei: ‘Meu Deus, sou eu!” Na época estava morando em Londres, que ela ainda adora. “Me considero uma londrina”, ela diz, “e amo o idioma – ele tem um tipo especial de musicalidade, mais fluído do que o alemão, que também adoro”. O que a atraiu para a Inglaterra? “A mesma razão pela qual Isaiah Berlin gostou. Você pode ser quem você é, não precisa se conformar, há uma grande tolerância intelectual”.

O carinho teve retorno. Uchida tornou-se dama do império britânico em 2009, alguns anos depois de se tornar cidadã. Ela construiu uma vida independente, em volta da sua obsessão por tocar o tempo todo. “Minhas costas e ombros ficam cansados, mas a mente e os dedos nunca”, ela diz. Na casa adjacente está Robert Cooper, seu parceiro por mais de 25 anos e conselheiro especial da UE em Burma. Subindo a rua está a casa onde moram seus três Steinways, além de ocasionais pianos inquilinos que passam curtas estadias lá, quando Uchida decide que é hora de tentar um clavicórdio do século XVIII ou um Graf vienense.

O adoecimento e morte de amigos próximos e dos respeitados colegas Pierre Boulez e Nikolaus Harnoncourt fizeram de 2016 um ano difícil para Uchida. “Isso me fez refletir sobre as coisas. Eu me vejo numa idade em que posso dar um passo atrás. Não preciso correr o mundo dando 120 concertos por ano… 50 é o suficiente para mim. Não preciso de coisas; não preciso de uma casa grande no interior. O problema com posses é que elas se apossam de você, se você não for cauteloso”.

Seu último projeto é uma parceria com a Orquestra de Câmara Mahler, com quem tocou recentemente os concertos para piano de Mozart, em Londres para celebrar seus três anos de residência no Southbank Centre. Mozart sempre foi querido por ela, e ela possui visões firmes sobre a maneira de tocá-lo em pianos antigos do século XVIII. “Bom, é claro que eu adoro tocar nesses pianos antigos com privacidade. Mas você acha que vou tocar um desses instrumentos, que são tão silenciosos, em um espaço grande como o Wigmore Hall? Você deve estar brincando!”

Ela também está tirando um tempo de folga, mas não tem certeza do que fazer. “Posso estudar umas sonatas de Beethoven”, ela diz. Quando demonstro surpresa por ela não aprender um novo idioma ou viajar, ela diz que não é uma opção. “Jamais poderia deixar minha paixão de lado. É claro, se eu me interessasse por outras coisas… seria apenas uma diversão prazerosa. Para mim a música é tudo o que consome.”

Texto original por:
Ivan Hewett, crítico musical
(http://www.telegraph.co.uk/music/what-to-listen-to/mitsuko-uchida-interview-not-enough-play-piano-takes-lifetime/)

Crédito da foto: music2020 via Visual Hunt / CC BY