O que significa quando sua mente divaga enquanto pratica?

Após um bom tempo sem postar nenhum artigo novo aqui no blog, consegui finalmente achar um tempo para postar algo. A postagem de artigos aqui ficará um pouco mais espaçada pelos próximos meses devido à grande quantidade de trabalho e estudo nos quais estou envolvida. Apesar disso não esqueci do blog e, sempre que puder, postarei algo novo e interessante por aqui. Por enquanto, fiquem com este texto super interessante sobre um fenômeno que tenho certeza de que todos estamos familiarizados. Sabe quando você está estudando e sua mente começa a viajar para outros lugares? Pois é. Boa leitura!

Quando você está dirigindo para o mercado, fazendo uma corrida ou praticando escalas, já percebeu como sua mente costuma viajar para outros lugares?

Se pensar a respeito, é um tipo de fenômeno meio bizarro. É quase como ser um zumbi dentro do seu próprio corpo, porque você está lá, mas ao mesmo tempo não está.

O que é mais desconcertante é a quantidade de tempo que passamos em “modo zumbi” – 46.9%, segundo um estudo.

É claro que a divagação mental não é ruim, mas, certamente, não é muito útil quando você está tentando aprender. Quando você está ocupado estudando uma partitura, revisando gravações de trechos ou praticando, estar presente e com o pensamento ativo traz maiores ganhos ao invés de fazer uma mera repetição enquanto sonha acordado com as últimas receitas de bolo mágico que você viu no Pinterest.

Então, por que a mente divaga? E o que podemos fazer para mantê-la aqui, conosco, na sala de estudo?

O ponto ideal de aprendizagem?

Pesquisas anteriores na área da divagação mental sugerem que há uma gama de fatores – como tédio, falta de interesse ou motivação, e fadiga – que aumentam as chances da nossa mente se desligar.

Mas não há muitos estudos que buscam estratégias para nos manter concentrados na tarefa em mãos. Então, uma dupla de pesquisadores da Universidade de Columbia se propôs a testar o modelo Region of Proximal Learning (Região de Aprendizagem Proximal, tradução não-oficial). Uma teoria que sugere que cada um de nós tem um “ponto ideal” de aprendizagem. Uma zona de dificuldade onde o material que estamos estudando (ou praticando) não é nem muito fácil (e entediante) e nem tão difícil (e estressante). Trata-se da ideia de que, quando estamos nessa zona ideal de aprendizagem, ficamos mais propensos a nos concentrar e focar na tarefa, porque há desafio suficiente para manter o interesse, mas não tanto para nos sentirmos frustrados e com vontade de desistir.

Eles elaboraram uma série de experimentos nos quais seus colegas de faculdade foram apresentados a uma variedade de palavras em inglês para as quais deveriam aprender a tradução em espanhol. Os pares de palavras às vezes eram fáceis (como Taxi – Taxi), moderados (Music Hall – Vodevil) ou difíceis (Stain – Chafarrinada) e, enquanto estudavam, os colegas eram ocasionalmente solicitados em uma tela a reportar se estavam focados ou se suas mentes estavam vagando.

Após a sessão de estudo, os colegas foram testados para ver o quão bem aprenderam as palavras.

Duas descobertas principais

Houve algumas descobertas consistentes entre os três estudos.

Descoberta #1: Os estudantes tiveram maior divagação mental enquanto estudavam palavras muito fáceis ou muito difíceis. Eles se mantiveram mais focados quando estudaram materiais dentro do seu “ponto ideal” de aprendizagem (na Região de Aprendizagem Proximal). Os pesquisadores também notaram que o ponto ideal de cada estudante era único, dependendo de seu conhecimento e habilidades prévios. Portanto, não existe um ponto ideal de aprendizagem universal; cada um de nós tem uma zona individualizada que é ideal para nosso nível de habilidade atual.

Descoberta #2: Houve também maior divagação mental na medida em que as sessões de estudo progrediam – os estudantes tinham mais facilidade em permanecer focados na tarefa na primeira metade das sessões de estudo, e menos na segunda metade.

Então, é isso?

À primeira vista, essas descobertas podem parecer um pouco entediantes…

Mas, na realidade, acredito que existam algumas conclusões que podemos aproveitar.

Conclusões

Eu costumava pensar que a divagação mental era algo que acontecia apenas porque meu cérebro estava sendo preguiçoso. Que eu simplesmente deveria me esforçar para ter uma concentração maior. Mas este estudo me faz pensar que a força de vontade não é a resposta. E que seria mais produtivo utilizar a ocorrência da divagação mental como ferramenta de diagnóstico.

Em outras palavras, se nossas mentes ficam mais propensas a divagar quando estamos praticando algo muito fácil ou muito difícil, talvez a melhor coisa a fazer quando percebemos que estamos perdendo o foco seja parar um pouco e perguntar o que foi que aconteceu.

Será que o que estamos estudando é muito fácil? Se este for o caso, pode ser que nosso objetivo não seja desafiador o suficiente para o que estamos fazendo. Ao invés de simplesmente tentar fazer cinco repetições “perfeitas” seguidas, pode ser mais interessante (e aumentar a dificuldade) fazer com que cada repetição seja diferente da anterior. Fazer aquela passagem com mais nuance. Deixar mais empolgante. Com maior contraste de dinâmica. Mais rápida. Em outras palavras, se comprometer a repetir sem fazer repetição (como neste exemplo musical, ou neste exemplo esportivo).

Por outro lado, será que o que estamos estudando é muito difícil? Talvez você esteja chegando ao fim da sua prática e ficando cansado demais para pensar com clareza e criatividade. Em momentos como este, uma pausa para beber água, se alongar ou caminhar ao ar livre pode ajudar.

Ou talvez o problema que está tentando resolver esteja um pouco além do conhecimento e habilidade que tem naquele momento. Está tudo bem. Se continuarmos nos conectando com as coisas que estão na nossa Região de Aprendizagem Proximal, nossas habilidades continuarão a crescer e, antes de percebermos, vamos progredir para resolver aqueles problemas que já não são mais tão desafiadores assim.

Texto original por:
Noa Kageyama
(http://www.bulletproofmusician.com/means-mind-wanders-youre-practicing/)