O quão eficaz é o estudo mental?

Dizia-se que o grande pianista Arthur Rubinstein aprendeu as Variações Sinfônicas de Franck através de uma prática mental durante uma longa viagem de trem e tocando-as no piano pela primeira vez no ensaio.

Seria isso uma lenda? Essas façanhas são possíveis para nós, pessoas “normais”?

Até que ponto podemos aprender, memorizar e tocar peças que estão no nosso nível de habilidade sem ter o benefício do instrumento para praticar?

Prática mental vs. prática física

Uma equipe de pesquisadores italianos e alemães conduziram um estudo com 16 pianistas (com idades entre 18 e 36 anos, cada um com pelo menos 15 anos de estudo).

Os pianistas receberam dois trechos de 19 compassos para aprender – de duas sonatas de Scarlatti diferentes (K72 e K113). Por que essas duas em particular? Os pesquisadores queriam ter certeza de que problemas técnicos não influenciariam, e ambos os trechos eram fáceis o suficiente para serem lidos à primeira vista por qualquer participante.

Para comparar a eficácia da prática mental vs. prática física, os dois trechos foram aprendidos em dois dias diferentes. Em um dia, os pianistas tiveram 30 minutos de prática mental e então tocaram de memória. No outro dia, tiveram 30 minutos de prática física no outro trecho, e então o tocaram de memória.

Os resultados foram sutis, mas interessantes.

Dois parâmetros de eficácia

A eficácia da prática dos pianistas foi avaliada de várias formas diferentes.

Número de notas

Um dos parâmetros foi simplesmente o número de notas que conseguiram lembrar de memória. Na prática mental, os pianistas conseguiram tocar até 63% do trecho antes de pararem. Isso não é ruim, mas a prática física foi mais eficiente – permitindo que os pianistas tocassem até 84% do trecho.

Proporção de notas erradas do total de notas

Os pesquisadores também registraram uma pontuação para a proporção de notas erradas entre o total de notas. Porque uma coisa é tocar 300 notas, mas se metade delas forem notas erradas, isso é muito menos significativo do que tocar apenas 200 notas, acertando cada uma delas.

Neste aspecto, a prática física também foi mais eficaz, com uma diferença de .08 para .17 da prática mental (o menor número é melhor).

Então, até agora, os resultados sugerem que a prática mental é melhor do que nada, mas não é tão boa quanto a prática física. O que faz muito sentido, é claro.

Mas espere – existe uma pegadinha (porque sempre há uma pegadinha, certo?).

Só mais 10 minutinhos!

Depois da primeira performance, todos os pianistas receberam mais 10 minutos para praticar. Então, para aqueles que faziam a prática física, isso resultou um total de 40 minutos ao piano, antes da passada final.

Aqueles que fizeram a prática mental também ganharam 10 minutos para praticar, mas, desta vez, em um piano de verdade.

Poderiam eles chegar ao mesmo nível, em 10 minutos, que o outro grupo conseguiu em 40 minutos?

Ao que parece, sim. Dez minutos de prática física foram o suficiente para elevar a performance ao nível do grupo que fez somente a prática física. Em relação ao número de notas tocadas, os indivíduos da prática mental conseguiram tocar 83% da peça. O grupo da prática física tocou 90% da peça, mas essa diferença não foi significativa na estatística.

A mesma coisa aconteceu com a proporção de notas acertadas. Os 30 minutos de prática mental mais os 10 minutos de prática física resultaram na pontuação de .07, enquanto os 40 minutos de prática física resultaram em .04. Mais uma vez, essa pequena diferença não foi estatisticamente significativa.

O que exatamente envolve a prática mental?

Houve um pouco de variação entre os pianistas, então um pouco de cuidado não é má ideia. Mas, ao que parece, a prática mental com a prática física pode ser uma combinação eficiente. É muito útil se você estiver preso em um trem ou avião e sem acesso ao seu instrumento. Ou se você quiser preservar a energia após um ensaio duplo e evitar lesões.

Mas, espere um segundo. O que exatamente significa a prática mental? O que esses pianistas fizeram dentro de suas cabeças durante os 30 minutos sem encostar no piano?

Os pesquisadores foram mais afundo, e descobriram que as estratégias variaram, desde ouvir mentalmente o som das notas, até imaginar a sensação do movimento correto das mãos/dedos e cantar em voz alta. Algumas dessas estratégias pareciam resultar em avaliações mais elevadas (por uma banca de músicos) de suas performances, enquanto outras não provocaram mudanças ou até mesmo diminuíram as avaliações.

Baseando-se nos resultados, aqui estão as recomendações dos pesquisadores:

  1. A imaginação auditiva – ou escutar as notas na página, “deveria ser a operação padrão, o fundamento no qual sustentam-se outras operações”.
  2. Análise – decifrar a estrutura harmônica, melódica e rítmica da peça é outro aspecto importante da prática mental.
  3. Ouvir gravações pode ajudar – mais uma vez, para auxiliar no desenvolvimento da escuta interna na música na sua mente.

Alguns outros pontos de interesse…

Uma ferramenta para treinar as habilidades de percepção

Todos os pianistas fizeram um teste de percepção, e aqueles que pontuaram mais nas habilidades de percepção foram os que conseguiram tocar uma porcentagem maior dos trechos. Eles também receberam uma pontuação geral maior na performance pelos jurados. Então, se você estiver procurando por uma razão para prestar mais atenção nas aulas de percepção musical, acredito que agora tem uma!

Prática mental não é uma prática comum?

Todos os pianistas eram experientes, e conheciam várias técnicas de prática mental. No entanto, nenhum dos 16 afirmou utilizar a prática mental regularmente durante sua rotina normal. O que me faz pensar: será que isso é algo anormal, ou a prática mental realmente não é um hábito regular no dia a dia dos músicos?

Texto original por:
Noa Kageyama
(http://www.bulletproofmusician.com/how-effective-is-mental-practice-really)