O que fazer quando se comete um erro?

 

Manuscrito de Beethoven da Sonata para Violoncelo Op. 69.

Manuscrito de Beethoven da Sonata para Violoncelo Op. 69.

Erros são uma grande obsessão na vida do professor de piano. Alunos vêm para a aula de piano, tocam suas peças e, cedo ou tarde, tocam notas erradas, ritmos errados, articulações erradas, dinâmicas erradas, e por aí vai.

Era uma vez, há não muito tempo (vamos dizer 50 anos atrás), um tipo particular de professor responderia ao erro com ações físicas: uma palmada nos dedos com uma régua, digamos, com a ideia de que isso iria focar a mente do estudante a não cometer erros. (É mais provável que isso focasse a mente do aluno a não ser torturado, mas, enfim, vamos falar sobre isso em outro momento.)

Mesmo que os professores de piano não façam isso agora, esta ideia de não cometer erros ainda permeia o cenário de aprendizagem do piano. Alunos são ensinados a evitá-los. Quando eles cometem um erro o professor marca um grande círculo em volta da nota na partitura, e então uma lista desses erros é montada para o aluno levar para casa e consertar.

Já escrevi anteriormente sobre a importância de não ter as aulas (ou a vida) estruturadas em torno da correção de erros. Mas aqui eu gostaria de explorar a ideia do ponto de vista de quem comete o erro: o que devemos fazer quando cometemos um erro? Sempre começo por aqui:

1. Pense sobre o que faz do erro ser um erro.
Soou ruim? Ele falhou na comunicação do que você queria expressar? Ele deu uma sensação ruim? Seu corpo ficou desnorteado? Ele inibiu a fluidez da sua performance? (Ou foi a sua preocupação sobre o erro que inibiu a fluidez?)

Se você não souber exatamente o que foi que você fez que causou o erro, então terá dificuldades para não repetir! Isto é tão verdadeiro na vida quanto na música.

Olhando por um outro lado…

A maioria dos erros que nos preocupam nas aulas de piano são erros de precisão, e não erros de verdade. De certa forma, não importa de onde ele vem; ainda precisamos localizar a fonte do erro para prevenir que ocorra novamente. Mas, enquanto a plateia vai ignorar/perdoar/não perceber os erros de precisão, erros de verdade vão destruir uma performance.

2. Explore o erro.
Você consegue repeti-lo? (Se não puder repetir o erro de propósito é muito provável que você não vá cometer aquele erro novamente.) Como o erro muda o sentindo da música? (Se você compreende o sentido que ele transmite, você pode escolher criar um sentido diferente.) Se você comete este erro neste ponto da música, o que mais pode ser ajustado para que a música tenha sentido?

Este tipo de investigação pode continuar por um bom tempo, e se isso for novo para você, pode parecer que está “perdendo tempo” ou “não está indo para frente”. Prenda-se a isto tanto quanto conseguir; esta investigação construirá uma plataforma de conhecimento profundo para futuras performances. (Ignore aquela voz que lhe diz que seria melhor praticar escalas. Não seria.)

3. Pergunte-se se o erro realmente foi um erro.
Talvez a coisa “errada” que você cometeu foi exatamente o que queria fazer. Quando alunos iniciantes tocam constantemente uma melodia com o contorno melódico errado, peço a eles que cantem a melodia; mais da metade das vezes eles tocam o contorno melódico que encaixa perfeitamente na sua imaginação, portanto, não estão cometendo um erro! Apenas não estão tocando a mesma peça que estou vendo na partitura. Esta é uma questão de “localizar a fonte do erro”, mas também pode levar a uma introspecção maior…

Se você está comprometido com as mudanças ao texto da música original, precisa ter consciência do contexto cultural daquela obra; você está tocando em um contexto onde a variação, improvisação e recomposição são valorizadas, ou será visto como negligente? Você está comprometido com seu “erro” porque o ponto de vista das outras pessoas não te interessa muito? Você é capaz de apresentar uma grande variedade de performances da mesma obra? O comprometimento com um erro pode, às vezes, indicar um alto nível de rigidez de pensamento, e isso pode ser mais ou menos perturbador/interessante/desafiador, dependendo da idade e da desenvoltura do artista!

Muitas vezes nossos ‘erros’ são um comprometimento com um conceito confuso sobre a obra. Nessas horas você precisar confiar nos seus professores e mentores; eles têm muito mais experiência do que você.

Então, agora, o que NÃO fazer…

1. Não fique tentando teclas diferentes no piano até tocar a tecla certa.
Quando você finalmente atingir a nota “certa” toda a peça estará errada, e você terá esquecido onde estava e qual era seu objetivo.

2. Não volte e comece do início.
Você já consegue tocar aquela parte. Não desperdice seu tempo. Quando você chegar onde estava o erro, já terá esquecido o que aconteceu e cometerá o mesmo erro novamente. Voltar ao início significa ficar em um beco sem saída.

3. Não escreva os nomes de todas as notas.
Isto não ajuda. Distrai. E faz você se sentir correto quando não conseguiu alcançar absolutamente nada. E você ainda não sabe por que cometeu o erro em primeiro lugar.

4. Não pense que você resolveu depois de tocar o trecho corretamente uma vez.
Amanhã você vai voltar e cometer o mesmo erro, porque durante todo o treino você praticou o erro, e apenas 1,3 segundos da sua prática aconteceu tocando certo.

O treino NÃO é, fundamentalmente, sobre repetição e disciplina; é sobre ouvir e refletir, perceber e explorar. Leve seu pensamento para longe do modelo de precisão = perfeição. Música não se trata de estar correto, trata-se de ser humano.

E lembre-se: se você não está cometendo erros, não está aprendendo nada. Cada vez que você comete um erro, você tem a chance de se tornar uma pessoa ainda mais fabulosa do que era antes; então, celebre os erros, eles lembram que você está vivo.

Texto original por:
Elissa Milne
(https://elissamilne.wordpress.com/2014/09/13/what-to-do-when-you-make-a-mistake/)