O piano recebe um novo design radical

(Credit: Lázsló Járai)

O pianista Gergely Bogányi percebeu que seu instrumento não tinha um equivalente ao violino Stradivarius – então, construiu um. Seria este o piano perfeito?

“Não é que eu tenha acordado um dia pensando: hoje vou construir um novo piano para o mundo”, diz Gergely Bogányi, um pianista concertista húngaro e, ultimamente, designer de pianos. “Mas sempre fui um pouco revolucionário. Passei muito tempo pensando: isso não é bom o suficiente, vamos construir algo melhor”.

Ele está falando comigo direto de sua fábrica nos arredores de Budapeste, “em um lugar lindo, próximo ao Danúbio e da floresta”, para me contar mais sobre o piano Bogányi, o novo instrumento radical que ele finalmente apresentou ao mundo no início deste ano, após uma “longa jornada espiritual e musical”.

Por gerações, os grandes pianistas do mundo tocaram nos mesmos instrumentos, com toda sua glória e deixando de verificar as falhas. Mas Bogányi não é o tipo de pessoa que deixa questões perturbadoras sem resposta: “Assim como muitos pianistas, toquei em muitos instrumentos ruins durante a minha infância. Mas a maior surpresa (como pianista profissional) foi descobrir que até mesmo as grandes salas de concerto não possuem sempre os pianos mais refinados e bem ajustados. Sempre senti que algo estava faltando no mundo moderno, para o pianismo moderno e a expressividade”.

Seu sonho revolucionário – “que parecia tão absolutamente impossível e ainda mais inspirador” – era a combinação de forma e funcionalidade de um jeito totalmente novo. Após anos de desenvolvimento, ele e sua equipe finalmente descobriram como fazer isso na forma de um instrumento de tirar o fôlego e que, por fim, “serve à música”. Os resultados são potencialmente inovadores. “Meu foco era [servir] a nobre tradição da sonoridade do piano e, ao mesmo tempo, ser genuinamente inovador”, afirma. “É claro que eu respeito e adoro os pianos antigos, mas estamos em 2015. Acho que é hora de buscar por uma nova verdade”.

Quando pergunto se ele a descobriu, responde imediatamente: “Com certeza!” Mas logo admite que, devido à sua natureza de ser alguém que está “sempre buscando melhorar mais e mais”, o processo nunca vai acabar. “Não estamos dizendo: tudo bem, aqui está a perfeição,” afirma, “mas: aqui está o piano em uma outra dimensão, com outra abordagem. E como resultado, nasce uma sonoridade diferente, um som mais desejável”.

Sonoridade

Com algumas exceções, a fabricação de instrumentos não aderiu à doutrina da evolução e progresso constantes: o piano permaneceu essencialmente inalterado em seu design fundamental por 200 anos. O protótipo do violino perfeito é ainda mais antigo: ninguém superou ainda a forma criada por Antonio Stradivari, nascido em 1644.

O piano de 2015 de Bogányi certamente tem um visual extraordinário, mas sua natureza radical vai muito além da estética. “Desde o início eu disse ao meu designer que queria algo nobre e elegante, mas nada que somente desse a boa aparência sem servir ao instrumento”, explica. “É um formato muito complexo porque não se trata somente de um design bonito, mas precisa servir vários propósitos ao mesmo tempo: carregar a dupla função de ser tradicional, mas muito inovador e moderno; precisa carregar a fluidez da música; e ser espiritualmente inspirador”.

Peço que ele explique a principal diferença entre este e os pianos mais tradicionais e ele responde sem hesitar. “A sonoridade. Como músico e pianista, este com certeza tinha que ser o meu foco. O piano é um instrumento percussivo e nosso maior problema é fazê-lo cantar e sustentar esse canto. Eu quis combinar o som caloroso, amigável e quase humano de um piano do século XIX como o Érard, com a potência do que é necessário para as salas de concerto modernas. Se olharmos um gráfico, normalmente veríamos o ataque percussivo no início da nota, e depois ele morre. Eu não queria ouvir esse ataque do martelo, mas o som em si, cantando”. Utilizando a combinação da “madeira refinada mais tradicional que você pode encontrar no mundo atualmente” com uma fibra de carbono composto, que é a “mais alta tecnologia de espaçonave”, ele e sua equipe desenvolveram uma nova caixa de ressonância e sistema de som. Eles também pensaram na ideia de que a perna esquerda do piano poderia atuar “como um elemento de direcionamento do som, direcionando o som para a plateia”.

Surpreendentemente, seu designer não tinha experiência prévia com pianos. Mas isso foi proposital. “Minha equipe é genial,” afirma Bogányi. “Sim, o designer nunca havia desenhado um piano, o engenheiro principal nunca havia projetado um, e o técnico nunca havia trabalhado em algo assim antes. Mas isso significa que poderiam abordar o projeto com uma mente aberta. Eles foram corajosos, e sempre os encorajei a se arriscarem e encontrarem soluções que não seriam normalmente ‘permitidas’ no universo santificado da construção de pianos; esta ideia de que ‘é sagrado, não pode ser tocado, é perfeito’. Na indústria da música clássica, todos sabem que a construção dos pianos mais antigos não era boa o suficiente, mas não era uma questão que se atreviam a falar a respeito. Fomos corajosos o suficiente para fazer alguns questionamentos – por que isso, porque aquilo, por que não? Por que não houve nenhum grande desenvolvimento no piano durante séculos?”

Com este projeto levando anos e custando valores não divulgados, será que ele se arrepende de ter feito esses questionamentos? Ele ri. “Graças a Deus que no início eu não entendi que seria algo quase impossível de fazer!” Mas ele está evidentemente satisfeito com o resultado: depois de lançar o piano nesta primavera, agora está atraindo interessados do mundo inteiro. O piano Bogányi – que leva seis meses para ser construído por uma equipe de até 100 pessoas e pode ser totalmente customizado –  agora está oficialmente no mercado, apesar de que a produção deve se manter em pequena escala pelos próximos anos. Será que ele imagina se um dia seu nome será sinônimo de um instrumento como, digamos, Steinway? “Até agora, minha equipe trabalhou muito, resolvendo problemas e sonhando, sem pensar muito sobre como será quando outras pessoas experimentarem [o piano]. Sem dúvida foi muito surpreendente e maravilhoso que quase todo mundo tenha ficado empolgado e, com certeza, eu ficaria muito feliz se o nosso piano encontrasse seu lugar e cumprisse a missão de fornecer novos ares para a música, salas de concerto e pianistas, mas…” ele faz uma pausa e ri novamente com um ar de incredulidade na voz. “Bom, quem sabe? Não está nos planos, mas parece que iniciamos uma pequena agitação…”

Texto original por:
Clemency Burton-Hill
(http://www.bbc.com/culture/story/20150813-how-i-created-the-bat-piano)

*Cortesia da tradutora: Gostou do piano Bogányi? Veja neste vídeo um exemplo da sonoridade: