Por que a música moderna é tão alta?


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O volume de som dos CDs tem aumentando desde meados dos anos 80, enquanto as gravadoras lutam para terem seus artistas ouvidos. Trevor Cox, professor de Engenharia Acústica da Universidade de Salford, investiga:

Por que a música moderna é tão alta?

Você pode imaginar que a resposta é simples: as pessoas colocaram o volume no onze. Mas não é apenas isso. Desde o fim dos anos 80, a indústria musical tem utilizado um truque de produção para que o volume de som das músicas pareça mais alto. Isto gerou uma “guerra de sonoridade”, uma vez que a indústria força para que cada música seja mais impactante do que a próxima.

“É como uma corrida de armamento sônico, onde cada uma tenta ser mais sonoro do que todo mundo”, diz Ian Shepherd, engenheiro de masterização que trabalhou com bandas como Deep Purple, Tricky, New Order e King Crimson.

Aqui está um exemplo com Thriller de Michael Jackson (lançado em 1982). A música vai passar por três versões; a do meio e do fim são relançamentos dos anos 90 e 2000. Quando a música foi remasterizada para os últimos álbuns de compilação, ficou mais alta.

O truque utilizado chama-se compressão da gama dinâmica. Isto faz com que as passagens mais silenciosas da música sejam impulsionadas, de forma que toda a música soe mais alta.

A onda apresentada no vídeo contém todos os sinais de compressão. No início, é possível ver picos e baixos. No final, tudo está em um nível quase constante.

Embora a música mais alta seja, de forma geral, mais empolgante, o problema com o excesso de compressão é que o som fica sem luz e sombra. Para que uma música funcione, precisa ter dinâmicas; a música alta fica mais impressionante quando está contrastada com algo mais silencioso.

A compressão também adiciona artefatos à música que podem soar mal. O áudio a seguir pertence a um pedaço da pesquisa de um colega meu na Universidade de Salford, Dr. Bruno Fazenda. A compressão é adicionada gradualmente ao violão. Inicialmente o instrumento soa um tanto natural, mas, na medida em que a compressão é adicionada, é possível ouvir um zumbido desagradável.

O que estudos como o do Dr. Fazenda mostram é que um pouco de compressão é bom porque nivela o som, mas em excesso torna-se desagradável.

Mas não são apenas os produtores musicais e audiófilos que reclamam sobre o uso em excesso da compressão; alguns consumidores também têm protestado. Pode parecer uma surpresa, mas o exemplo mais conhecido vem dos fãs de heavy metal.

Em 2008, o álbum Death Magnetic do Metallica foi disponibilizado tanto em CD quanto no jogo de computador Guitar Hero. Isto deu aos fãs a oportunidade incomum de comparar versões, e muitos preferiram a versão do jogo com menos compressão do que a do próprio CD do Metallica.

Mais de 10 mil fãs assinaram uma petição para que o álbum fosse remasterizado. Aqui está um pequeno fragmento de uma das faixas, começando pela versão do Guitar Hero, e então o mesmo trecho do CD, notoriamente compressado.

Mas, ao que parece, a guerra da sonoridade pode chegar ao fim.

A compressão deixa marcas distintas nas gravações que os engenheiros de áudio podem usar para analisar como a guerra da sonoridade progrediu nas últimas décadas. Estudos científicos mostram que a sonoridade dos discos de sucesso aumentou de 1989 até por volta de 2004. Depois disso, o aumento de sonoridade parece ter desacelerado. É difícil ter a certeza de que a guerra acabou, mas ao menos parecem ter cessado fogo.

O movimento de baixar faixas e comprar CDs até os serviços de fluxo de mídia como Spotify parece estar mudando as coisas para o melhor.

Os serviços de fluxo de mídia normalmente são configurados para que cada faixa musical pareça estar com volume igualmente alto. Isto significa que, se uma faixa musical for compressada exageradamente para parecer mais alta quando for gravada, quando passar pelo serviço de fluxo de mídia a vantagem sonora não vai existir, e só restará uma distorção desagradável.

O incentivo para músicas cada vez mais altas pode logo desaparecer.

Texto original por:
Professor Trevor Cox
Universidade de Salford
(http://www.bbc.com/news/entertainment-arts-35250557)